A Ásia Exótica vs. Ásia da Revolta: a diferença entre visitar e morar!

Uma vez, uma amiga disse: “quando se visita a Ásia, tudo é exótico e lindo… Mas tenta morar por aqui…”. Algumas vezes tenho essa sensação exata.

Morar na Ásia é uma experiência que me desafia constantemente. Seja em algum episódio com taxista, seja por alguma coisa que me falaram ou pela forma como se comportaram, há quatro anos vivo momentos no meu dia-a-dia que me deixam em choque surpreendem, pelo menos uma vez por semana.

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Desabafos (I): Chantagem Emocional e Reflexões sobre Amizade

Conheço uma menina que um amigo apelidou de Dhyva. Não que ela seja uma diva; justamente o oposto, mas achei engraçado e o apelido pegou. Outro dia, ela disse me disse, entre lágrimas “Achei que seria diferente… Achei que porque você é minha conterrânea, porque somos da mesma terra, você seria minha amiga e fosse me ajudar.”

‘Dhyva, honestamente, acho que não somos nem do mesmo mundo porque eu venho do mundo das pessoas lymdas e inteligentes e não do mundo das pessoas que se fazem de coitadas’, pensei enquanto meu sangue fervia borbulhava de raiva pela afirmação injusta e pelas lágrimas de crocodilo que caíam daquela cara redonda. Sinceramente, acho o cúmulo da falta de respeito chorar quando se está levando bronca no trabalho, mas nem foi só por isso que fiquei irada.

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Vende-se Paz Espiritual. Preço Negociável.

Ásia… Continente desconhecido e longínquo para muitos ocidentais. Um continente misterioso, onde muitas pessoas acreditam que encontrarão sua paz espiritual, principalmente depois que Elizabeth Gilbert lançou o seu livro “Comer Rezar Amar” e Julia Roberts a interpretou no blockbuster que foi sua versão cinematográfica. Eu, pelo menos, acreditava que os habitantes do sudeste asiático carregavam uma leveza no seu ser, um sorriso relaxado em seus rostos. Eu acreditava, particularmente, que aqui eu fosse encontrar uma paz de espírito, junto a pessoas que não se apegavam ao material.

Que iludida eu estava! A quantidade de shopping-centers gigantes na Ásia é enorme (inclusive, os maiores shopping-centers do mundo estão por aqui). Quando cheguei a Manila, fiquei chocada com a quantidade de shopping-centers que existem na cidade (praticamente um por quadra): o Mega-Mall (que, pelo nome, já deu para imaginar que é enorme), o Mall of Asia (onde fazem shows de fogos de artifício todos os fins de semana), etc. Inclusive em Eastwood, bairro onde eu vivo e é minúsculo, com três ruas, edifícios comerciais e residenciais, existem três shopping-centers.

A paixão-consumista que toma conta dos asiáticos é impressionante. Por exemplo, em Hong Kong foi o único lugar do mundo onde eu vi fila para entrar na Louis Vuitton e na Chanel. FILA. Louis Vuitton e Chanel, duas das marcas mais caras do mundo!

Louis Vuitton em Hong Kong

Louis Vuitton em Hong Kong

A Tailândia, o país conhecido como a Terra dos Mil Sorrisos, é praticamente budista. E ainda assim, também é lotada de centros de compras. Infelizmente também é onde existe um dos maiores comércios ilegais de animais silvestres do mundo. Isso é um fato que não muda o que eu senti enquanto estava no país: a Tailândia ainda é o meu país favorito do Sudeste Asiático.

O centro de Bali (a região de Denpasar e Kuta Beach) está lotado de scooters e o trânsito é insuportável. É uma mescla de arquitetura tradicional balinesa e o consumismo moderno: esculturas balinesas em frente a uma Ford Motors, os templos menores que dividem o espaço com lojas e turistas. Passamos por Ubud, região onde Elizabeth Gilbert viveu, para visitar a Floresta dos Macacos. A região está lotada de cafés e lojas. Como eu passei por lá a caminho de algum templo, não fiquei muito tempo. Mas eu li que o lugar está cheio de mulheres de meia-idade em busca da sua espiritualidade e da inspiração para escrever um novo best-seller. Ketut Lyer, o guia espiritual de Elizabeth, cobra algo em torno de US$ 30,00 para suas consultas quando a maioria dos curandeiros cobra 1/5 desse valor: o livro fez o marketing que permitisse que se tornasse um homem rico. Bom para ele. É o merecimento.

Na Ásia, a paz espiritual está à venda por um preço módico. Mas não se esqueçam de pechinchar ou vocês serão enganados. Em qualquer mercado, em qualquer lugar (exceto em lojas oficiais), se tem que pechinchar. Se o vendedor diz um preço, responda que levará a mercadoria pela metade do preço. Finja que você não está muito interessado no que realmente quer. Se o vendedor não mudar de idéia, vire de costas e finja que sairá da loja. É provável que você consiga o que quer pelo preço que está disposto a pagar. E ainda assim, os comerciantes ganharão a sua parte. Meu amigo, Fábio Mesquita, está escrevendo um livro sobre a busca da paz espiritual na Ásia e acho que será muito bom porque, algumas das situações que vivemos nesse lado do mundo são engraçadíssimas.

Afinal, como, no meio desse caos, alguém pode esperar encontrar sua paz espiritual?

De uma forma engraçada, talvez, esse seja realmente o lugar para isso. Talvez não para encontrá-la, mas para desenvolvê-la. Eu li que é muito fácil uma pessoa estar em paz consigo mesma e com o mundo em um ashram na Índia; o difícil é praticar isso no meio do caos urbano, com os carros buzinando e as pessoas gritando no seu ouvido.

Aqui, por exemplo, precisamos colocar em prática o “perdoar”: a quantidade de taxistas que tentam passar a perna nos clientes descaradamente por centavos é impressionante. Hoje mesmo, peguei um táxi com um amigo e fomos a Makati. Passamos a saída de Makati e chegamos a Fort Bonifacio. O taxista me perguntou: “você sabe onde estamos, ma’am?” “sim, cuia, estamos em Fort Bonifacio. Só não entendi porque você não virou a direita há duas ruas, para chegar a Makati”. Perdoá-los, pois eles não sabem o que fazem. Perdoá-los porque algumas vezes eu tampouco sei o que faço e necessito perdão.

Há alguns anos, eu tento viver a minha vida respeitando algumas leis que eu considero importante. Entre elas, estão o “não julgar” e “respeitar o próximo”.

Como já deu para perceber, eu fico indignada quando alguém se mete na minha vida. O que qualquer pessoa tem a ver com ela? Outro dia, eu li no FB uma frase mais ou menos assim: quando você caminhar pelos mesmos caminhos que os meus, quando você tiver que fazer as mesmas escolhas que eu fiz, quando você tropeçar pelas mesmas pedras, enfim, quando viver a minha vida, você terá o direito de julgar as minhas decisões. Eu li e concordei. Mas isso me fez pensar.

Na Ásia, o transsexualismo é muito aceito. Aqui, muitos dos homossexuais não são simplesmente homens que se sentem atraídos por outros homens: muitos usam salto, usam legging, deixam o cabelo crescer, usam chapinha no cabelo, enfim, se vestem e se comportam como mulheres. Como eu não vejo apelo sexual nos homens do sudeste asiático, acho que até alguns heterossexuais possam ser um pouco afeminados: para os meus sentidos não treinados de uma ocidental, algumas vezes não consigo reconhecer se o que eu vejo é um homem afeminado ou uma mulher um pouco masculinizada. Enfim, alguns transsexuais até fazem a cirurgia (parcial ou total) para se tornarem mulheres (os ladyboys da Tailândia, por exemplo).

Um dia estava indo ao mercado com a mochila nas costas. Passou por mim um grupo de adolescentes, com seus 18 ou 20 anos. Entre eles, um rapaz usava batom vermelho. Eu olhei para aquilo, um pouco chocada e pensei “se fosse meu filho, eu esfregava sua cara com Bombril até que saísse todo o batom”. Merda. Julguei. O mesmo aconteceu quando, enquanto jantava com o Jorge em um dos restaurantes de um dos shopping-centers de Eastwood e passou por nós um grupo de três meninas e três meninos. Os meninos usavam leggings e jaquetas brilhantes, com lantejoula, e eu disse “se fosse meu filho, eu choraria por um mês”. Merda, julguei outra vez… Repeti o básico da lição “não julgarás”

Afinal, que direito eu tenho de julgar essas pessoas? Eles não estavam fazendo mal para mim em particular ou para ninguém. Eles simplesmente estavam nos mesmos lugares que eu. Se eu fico indignada quando alguém interfere na minha vida, que direito eu tenho de julgar o outro? Eu mesma respondo: nenhum.

O problema é que fazemos julgamentos todos os dias. Se vemos um casal, o homem com 80 anos e a mulher com 20 (ou ao contrário), logo pensamos (e muitas vezes comentamos) que alguém está dando o golpe do baú. Se vemos uma senhora de 100 anos com mini-saia e blusa justa, pensamos em o quão ridícula ela se parece. Julgamos os nossos políticos corruptos e nos esquecemos que fomos nós quem o elegemos. Julgamos o nosso chefe, incompetente, a nossa sociedade tonta por gostar de programas como BBB sem perceber que fazemos parte dessa mesma sociedade. Julgamos porque comparamos o que vemos, o que vivemos, com os estereótipos pré-concebidos em nossa mente, com o que acreditamos como o outro deva se comportar. Julgamos o outro porque ele é diferente, em sua forma de ser, em sua forma de atuar, em sua forma de pensar. Julgamos para expressar uma inconformidade, algo que nos incomoda. Julgamos o outro sem perceber, a todo o momento. E ainda assim esperamos o outro não nos julgue, que nos respeite e aceite como somos. Como somos contraditórios! Exigimos uma evolução espiritual do outro que nós mesmos não atingimos.

Minha primeira terapeuta me disse que nós, seres humanos, vivemos em uma fila indiana: podemos ver os defeitos dos outros (suas costas), mas não vemos nossos próprios defeitos. Jung discutia que todas as pessoas têm suas sombras e, quando a consciência se vê em uma situação ameaçadora ou duvidosa, a sombra se manifesta como uma projeção, positiva ou negativa, sobre o próximo. Em outras palavras, vemos no outro, criticamos no outro, o que não conseguimos aceitar em nós mesmos.

Eu lido com as minhas contradições todos os dias: com o que acredito ser o correto e minhas atitudes. Antes de exigir que uma pessoa não interfira na minha vida, talvez, eu não devesse interferir na vida de ninguém. Não sei se algum dia eu passarei por um homem com batom vermelho na rua e não pensarei nada, mas espero não comentar. E, depois, quem sabe, eu não passo a aceitar. Passos de formiga, um dia de cada vez. Talvez, um dia, eu aprenda a respeitar e aceitar o outro exatamente como ele é, sem deixar que o meu ego interfira. Até lá, acho que terei que aceitar as loucas no banheiro que dizem que eu engordei…