Japão 2015 – O Planejamento

A última viagem que fiz – e a primeira de 2015 – foi para o Japão. Sou sansei, isso é, sou neta de japoneses e essa visita foi muito mais que um passeio turístico; pessoalmente essa viagem foi uma espécie de “Comer Rezar Amar” express que ocorreu em dez dias em um só país. Foi volta às minhas origens e um resgate do meu eu, intercalado por um roteiro gastronômico incrível. Acredito, portanto, que não serei capaz de escrever todas as minhas sensações, dar dicas gastronômicas e ainda passar o roteiro que fiz em um só post: vou escrever muito e, muitas vezes, vou precisar procurar as palavras corretas para descrever tudo que senti.

Eu tinha grandes expectativas quando agendei minha viagem. Sendo descendente de japoneses, a curiosidade por conhecer a terra de onde vieram meus avós, que só nasceu quando assisti a “O Último Samurai” de Edward Zwick, vinha crescendo. Eu sabia que era uma viagem que não poderia fazer em um só fim de semana ou mesmo em um feriado prolongado – como poderia chegar a Nagasaki, que fica a 15 horas de Tóquio, e ainda conhecer Kyoto e a capital? Para isso, precisaria de pelo menos dez dias…

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A Ásia Exótica vs. Ásia da Revolta: a diferença entre visitar e morar!

Uma vez, uma amiga disse: “quando se visita a Ásia, tudo é exótico e lindo… Mas tenta morar por aqui…”. Algumas vezes tenho essa sensação exata.

Morar na Ásia é uma experiência que me desafia constantemente. Seja em algum episódio com taxista, seja por alguma coisa que me falaram ou pela forma como se comportaram, há quatro anos vivo momentos no meu dia-a-dia que me deixam em choque surpreendem, pelo menos uma vez por semana.

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O Halloween no Mundo Colorido de Bobby… Oops, nas Filipinas

Quando penso em Halloween, imediatamente penso em um bando de criancinhas disfarçadas e um balde de doces. Sei que é uma festa bastante celebrada nos Estados Unidos e, quando era pequena e assistia aos filmes hollywoodianos, tinha vontade enorme de sair batendo nas portas dos meus vizinhos dizendo “trick or treat“.

A palavra deriva do termo escocês “All Hallows’ Eve“, que, literalmente, significa Véspera do Dia dos Reverenciados, ou seja, o Dia de Todos os Santos e marca o primeiro dia de uma época em que a Igreja Católica celebra os santos e os mortos. Como muitas festas e feriados católicos, acredito que sua origem seja pagã; neste caso, sua origem vem da festa celta de Samhain na qual se celebra o fim da temporada de colheitas e o início do inverno, uma época sombria.

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Um Passeio por Xiamen, China

“Xiamen é uma cidade interessante, mas é bastante pequena”. Ouvi essa frase de um chinês que morava em Shanghai, uma das pessoas com quem dividi o quarto do albergue que ficamos na viagem desse fim de semana. Ele se referia a Xiamen, uma cidade em uma ilha localizada ao sul da China, como relativamente pequena embora tenha uma população de aproximadamente 3,5 milhões de pessoas. Acho que para os chineses 3,5 milhões de pessoas realmente é um povoado de interior…

Com aproximadamente 1,6 bilhões de habitantes, a China é um mundo a parte e não falo isso de modo figurativo: é literal. Acho que a China não precisaria de outros mercados para consumir o que produz: tudo que é produzido na China encontraria seu mercado internamente. E, me encontrar no meio dessa quantidade toda de pessoas, começar a entender a superfície de que um mercado como o chinês representa, foi bem interessante.

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Vende-se Paz Espiritual. Preço Negociável.

Ásia… Continente desconhecido e longínquo para muitos ocidentais. Um continente misterioso, onde muitas pessoas acreditam que encontrarão sua paz espiritual, principalmente depois que Elizabeth Gilbert lançou o seu livro “Comer Rezar Amar” e Julia Roberts a interpretou no blockbuster que foi sua versão cinematográfica. Eu, pelo menos, acreditava que os habitantes do sudeste asiático carregavam uma leveza no seu ser, um sorriso relaxado em seus rostos. Eu acreditava, particularmente, que aqui eu fosse encontrar uma paz de espírito, junto a pessoas que não se apegavam ao material.

Que iludida eu estava! A quantidade de shopping-centers gigantes na Ásia é enorme (inclusive, os maiores shopping-centers do mundo estão por aqui). Quando cheguei a Manila, fiquei chocada com a quantidade de shopping-centers que existem na cidade (praticamente um por quadra): o Mega-Mall (que, pelo nome, já deu para imaginar que é enorme), o Mall of Asia (onde fazem shows de fogos de artifício todos os fins de semana), etc. Inclusive em Eastwood, bairro onde eu vivo e é minúsculo, com três ruas, edifícios comerciais e residenciais, existem três shopping-centers.

A paixão-consumista que toma conta dos asiáticos é impressionante. Por exemplo, em Hong Kong foi o único lugar do mundo onde eu vi fila para entrar na Louis Vuitton e na Chanel. FILA. Louis Vuitton e Chanel, duas das marcas mais caras do mundo!

Louis Vuitton em Hong Kong

Louis Vuitton em Hong Kong

A Tailândia, o país conhecido como a Terra dos Mil Sorrisos, é praticamente budista. E ainda assim, também é lotada de centros de compras. Infelizmente também é onde existe um dos maiores comércios ilegais de animais silvestres do mundo. Isso é um fato que não muda o que eu senti enquanto estava no país: a Tailândia ainda é o meu país favorito do Sudeste Asiático.

O centro de Bali (a região de Denpasar e Kuta Beach) está lotado de scooters e o trânsito é insuportável. É uma mescla de arquitetura tradicional balinesa e o consumismo moderno: esculturas balinesas em frente a uma Ford Motors, os templos menores que dividem o espaço com lojas e turistas. Passamos por Ubud, região onde Elizabeth Gilbert viveu, para visitar a Floresta dos Macacos. A região está lotada de cafés e lojas. Como eu passei por lá a caminho de algum templo, não fiquei muito tempo. Mas eu li que o lugar está cheio de mulheres de meia-idade em busca da sua espiritualidade e da inspiração para escrever um novo best-seller. Ketut Lyer, o guia espiritual de Elizabeth, cobra algo em torno de US$ 30,00 para suas consultas quando a maioria dos curandeiros cobra 1/5 desse valor: o livro fez o marketing que permitisse que se tornasse um homem rico. Bom para ele. É o merecimento.

Na Ásia, a paz espiritual está à venda por um preço módico. Mas não se esqueçam de pechinchar ou vocês serão enganados. Em qualquer mercado, em qualquer lugar (exceto em lojas oficiais), se tem que pechinchar. Se o vendedor diz um preço, responda que levará a mercadoria pela metade do preço. Finja que você não está muito interessado no que realmente quer. Se o vendedor não mudar de idéia, vire de costas e finja que sairá da loja. É provável que você consiga o que quer pelo preço que está disposto a pagar. E ainda assim, os comerciantes ganharão a sua parte. Meu amigo, Fábio Mesquita, está escrevendo um livro sobre a busca da paz espiritual na Ásia e acho que será muito bom porque, algumas das situações que vivemos nesse lado do mundo são engraçadíssimas.

Afinal, como, no meio desse caos, alguém pode esperar encontrar sua paz espiritual?

De uma forma engraçada, talvez, esse seja realmente o lugar para isso. Talvez não para encontrá-la, mas para desenvolvê-la. Eu li que é muito fácil uma pessoa estar em paz consigo mesma e com o mundo em um ashram na Índia; o difícil é praticar isso no meio do caos urbano, com os carros buzinando e as pessoas gritando no seu ouvido.

Aqui, por exemplo, precisamos colocar em prática o “perdoar”: a quantidade de taxistas que tentam passar a perna nos clientes descaradamente por centavos é impressionante. Hoje mesmo, peguei um táxi com um amigo e fomos a Makati. Passamos a saída de Makati e chegamos a Fort Bonifacio. O taxista me perguntou: “você sabe onde estamos, ma’am?” “sim, cuia, estamos em Fort Bonifacio. Só não entendi porque você não virou a direita há duas ruas, para chegar a Makati”. Perdoá-los, pois eles não sabem o que fazem. Perdoá-los porque algumas vezes eu tampouco sei o que faço e necessito perdão.

Há alguns anos, eu tento viver a minha vida respeitando algumas leis que eu considero importante. Entre elas, estão o “não julgar” e “respeitar o próximo”.

Como já deu para perceber, eu fico indignada quando alguém se mete na minha vida. O que qualquer pessoa tem a ver com ela? Outro dia, eu li no FB uma frase mais ou menos assim: quando você caminhar pelos mesmos caminhos que os meus, quando você tiver que fazer as mesmas escolhas que eu fiz, quando você tropeçar pelas mesmas pedras, enfim, quando viver a minha vida, você terá o direito de julgar as minhas decisões. Eu li e concordei. Mas isso me fez pensar.

Na Ásia, o transsexualismo é muito aceito. Aqui, muitos dos homossexuais não são simplesmente homens que se sentem atraídos por outros homens: muitos usam salto, usam legging, deixam o cabelo crescer, usam chapinha no cabelo, enfim, se vestem e se comportam como mulheres. Como eu não vejo apelo sexual nos homens do sudeste asiático, acho que até alguns heterossexuais possam ser um pouco afeminados: para os meus sentidos não treinados de uma ocidental, algumas vezes não consigo reconhecer se o que eu vejo é um homem afeminado ou uma mulher um pouco masculinizada. Enfim, alguns transsexuais até fazem a cirurgia (parcial ou total) para se tornarem mulheres (os ladyboys da Tailândia, por exemplo).

Um dia estava indo ao mercado com a mochila nas costas. Passou por mim um grupo de adolescentes, com seus 18 ou 20 anos. Entre eles, um rapaz usava batom vermelho. Eu olhei para aquilo, um pouco chocada e pensei “se fosse meu filho, eu esfregava sua cara com Bombril até que saísse todo o batom”. Merda. Julguei. O mesmo aconteceu quando, enquanto jantava com o Jorge em um dos restaurantes de um dos shopping-centers de Eastwood e passou por nós um grupo de três meninas e três meninos. Os meninos usavam leggings e jaquetas brilhantes, com lantejoula, e eu disse “se fosse meu filho, eu choraria por um mês”. Merda, julguei outra vez… Repeti o básico da lição “não julgarás”

Afinal, que direito eu tenho de julgar essas pessoas? Eles não estavam fazendo mal para mim em particular ou para ninguém. Eles simplesmente estavam nos mesmos lugares que eu. Se eu fico indignada quando alguém interfere na minha vida, que direito eu tenho de julgar o outro? Eu mesma respondo: nenhum.

O problema é que fazemos julgamentos todos os dias. Se vemos um casal, o homem com 80 anos e a mulher com 20 (ou ao contrário), logo pensamos (e muitas vezes comentamos) que alguém está dando o golpe do baú. Se vemos uma senhora de 100 anos com mini-saia e blusa justa, pensamos em o quão ridícula ela se parece. Julgamos os nossos políticos corruptos e nos esquecemos que fomos nós quem o elegemos. Julgamos o nosso chefe, incompetente, a nossa sociedade tonta por gostar de programas como BBB sem perceber que fazemos parte dessa mesma sociedade. Julgamos porque comparamos o que vemos, o que vivemos, com os estereótipos pré-concebidos em nossa mente, com o que acreditamos como o outro deva se comportar. Julgamos o outro porque ele é diferente, em sua forma de ser, em sua forma de atuar, em sua forma de pensar. Julgamos para expressar uma inconformidade, algo que nos incomoda. Julgamos o outro sem perceber, a todo o momento. E ainda assim esperamos o outro não nos julgue, que nos respeite e aceite como somos. Como somos contraditórios! Exigimos uma evolução espiritual do outro que nós mesmos não atingimos.

Minha primeira terapeuta me disse que nós, seres humanos, vivemos em uma fila indiana: podemos ver os defeitos dos outros (suas costas), mas não vemos nossos próprios defeitos. Jung discutia que todas as pessoas têm suas sombras e, quando a consciência se vê em uma situação ameaçadora ou duvidosa, a sombra se manifesta como uma projeção, positiva ou negativa, sobre o próximo. Em outras palavras, vemos no outro, criticamos no outro, o que não conseguimos aceitar em nós mesmos.

Eu lido com as minhas contradições todos os dias: com o que acredito ser o correto e minhas atitudes. Antes de exigir que uma pessoa não interfira na minha vida, talvez, eu não devesse interferir na vida de ninguém. Não sei se algum dia eu passarei por um homem com batom vermelho na rua e não pensarei nada, mas espero não comentar. E, depois, quem sabe, eu não passo a aceitar. Passos de formiga, um dia de cada vez. Talvez, um dia, eu aprenda a respeitar e aceitar o outro exatamente como ele é, sem deixar que o meu ego interfira. Até lá, acho que terei que aceitar as loucas no banheiro que dizem que eu engordei…

Lago Pinatubo 2011: uma luta pessoal contra a ansiedade…

A primeira visão do Lago Pinatubo

A primeira visão do Lago Pinatubo

Março foi um mês de muitas mudanças em minha vida. Eu abri espaço na minha agenda de amante-do-sofá (ou melhor, da minha cama) e me tornei um membro ativo da academia perto de casa, frequentando-a de três a quatro vezes na semana. Recebi o meu kit de estudos e recomecei (embora em passos lentos de tartaruga preguiçosa) meus estudos para me tornar uma contadora. Coloquei meus músculos (do corpo e do cérebro) para funcionar e me sinto bem com isso. E ainda tenho tempo para seguir as séries que sou super viciada.

Acho que estou tentando encontrar um equilíbrio nisso tudo. Assistir às minhas séries, praticar exercício físico algumas horas por semana, estudar um pouco e ver amigos preencheram meus dias durante o mês de março. Claro que isso tudo foi entremeado por horas de trabalho (forçado, como se eu fosse um presidiário, conto meus dias para sair… Que dramática! Haha!), tempo no FB, momentos dedicados aos meus posts e trabalhos de casa diários (que tipo de dona de casa desesperada eu seria se eu não tivesse tempo de enfrentar meu “tanquinho” de tempos em tempos?). De forma geral, foi um mês bem ocupado. Ainda assim, parecia que me faltava alguma coisa. Ou que algo estava… Estranhamente fora de lugar.

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