A Ásia Exótica vs. Ásia da Revolta: a diferença entre visitar e morar!

Uma vez, uma amiga disse: “quando se visita a Ásia, tudo é exótico e lindo… Mas tenta morar por aqui…”. Algumas vezes tenho essa sensação exata.

Morar na Ásia é uma experiência que me desafia constantemente. Seja em algum episódio com taxista, seja por alguma coisa que me falaram ou pela forma como se comportaram, há quatro anos vivo momentos no meu dia-a-dia que me deixam em choque surpreendem, pelo menos uma vez por semana.

Seja o entregador do mercado que, ao acompanhar você a casa com as suas compras começa a fazer perguntas que você não tem a mínima vontade de responder – não porque seja entregador, mas porque ele é um desconhecido qualquer (“você é coreana, ma’am?” “de onde você é?” “você está aqui de férias?”), seja aquele colega de trabalho que não vê problemas em perguntar se você e seu marido brigam (sim, alta intrusão da sua privacidade) ou aquele momento no trânsito que você se dá conta que fecharam a outra das únicas duas vias de grande circulação que ligam o norte ao sul da região metropolitana e você terá que cozinhar passar algumas horas em uma sauna improvisada chamada táxi que breca e acelera tanto que faz suas tripas dançarem.

Dia 25 de fevereiro, por exemplo, foi aniversário da Revolução da EDSA. A EDSA é uma das únicas duas vias principais que ligam a região metropolitana de norte a sul e a Revolução da EDSA de 1986 marcou o fim da ditadura de Ferdinand Marcos e a restauração da democracia ao país. Quem não conhece, Ferdinand Marcos é uma das figuras mais controversas da política filipina porque, ainda que o país tenha se desenvolvido (e muito) sob seu governo através de planos econômicos e infraestrutura, ele foi responsável pelo golpe de estado em 1972 e, junto com sua infame esposa Imelda Marcos (a dos sapatos), foi também responsável por escândalos de corrupção durante a sua, então conhecida, “cleptocracia”.

Enfim, sei que o dia 25 de fevereiro é importante e merece ser comemorado. Mas se o país declarou três dias de feriado extra-oficial durante os três dias úteis que o Papa Francisco esteve nas Filipinas, porque o governo, além de fechar metade da EDSA, declarou apenas feriado especial para as escolas? Não que seja a favor dos feriados não oficiais – entendo o quanto eles custam para um negócio, mas a cidade já não tem infraestrutura suficiente para comportar a locomoção de seus pouco mais de 12 (ou seriam 14?) milhões de habitantes em dias que as suas duas vias principais funcionam normalmente quem diria quando se fecha metade de uma delas… Que a comemoração seja feita em outro local então! Que falta de visão!

Por causa dessa falta de noção do governo, ficamos parados pouco mais de uma hora em um calor insuportável, dentro de um táxi que brecava e acelerava a cada segundo, o que me deixou enjoada. Quando soube de pessoas que 6 horas (sim, SEIS HORAS) para chegar ao trabalho, olhei para o Jorge e afirmei “se houvéssemos demorado 6 horas para chegar em casa, não teríamos vindo trabalhar hoje” porque ninguém merece ficar 25% do seu dia preso no trânsito!

Mencionei sobre as perguntas, certo? Então… Quando não me tomam por filipina e começam a falar o tal do tagalog (ou filipino) comigo, acham que sou coreana. Embora minha pela não seja alva como a de uma coreana, nem reclamo porque, para mim, não ser confundida com filipina já está bom, mas, se me perguntam se sou coreana, vou responder que não. Há vezes que eu não tenho vontade de conversar e, para mim, meu singelo não deveria parar com a conversa. Só que isso não acontece por aqui…

Muitos querem saber de tudo da sua vida simplesmente por saber. Particularmente, não vejo maldade, como se quisessem saber da minha vida para poderem controlar meus hábitos e depois me sequestrar: embora já tenha ouvido histórias de sequestro, elas são poucas e, na maior parte das vezes, vejo os filipinos como se fossem eternas crianças com seus eternos (e curiosos) porquês…

Mas, mesmo que eu os veja assim, há momentos que não quero falar sobre mim. E, como sou estrangeira, eles querem saber tudo. Só que eu não tenho paciência para responder às perguntas infantis feitas por um adulto, me explico?

Quando cheguei, os taxistas me perguntavam se era casada… Quando dizia que não, eles perguntavam “mas por quê você ainda não se casou?”. Super normal (SQN). Isso me deixava revoltada em estado de choque no qual pensava: espera um momento, kuya, que vou perguntar a todos os meus ex-namorados porque eu continuo solteira e volto com a resposta. Sério mesmo? E isso é da sua conta por quê???

Sim… Vale muito a pena visitar a Ásia, mas morar aqui já é outra história… Depois de um tempo que as coisas acontecem, eu rio porque não há outra maneira de encarar essas coisas. E todos os momentos se tornam histórias para se contar…

Estou planejando um livro, que teria como título “Contos Filipenhos – Meus Anos Vivendo em Metro Manila”. Acho que será um sucesso! O que vocês acham?

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7 comentários sobre “A Ásia Exótica vs. Ásia da Revolta: a diferença entre visitar e morar!

  1. Tati, concordo com você plenamente! Há diferenças culturais que você até tenta compreender, mas que enchem o saco, enchem. Eu me incomodava com essa invasão de privacidade da minha colega chinesa quando morava no Japão. Ela era super gente boa, mas fazia muitas perguntas do tipo: “o que você faz quando chega em casa?”, “que horas você acorda?”, querendo saber todos os detalhes da minha vida. Eu não tenho nenhum problema em revelar a alguém que horas eu acordo, mas me sentia invadida com as perguntas dela.
    Quanto ao seu livro, eu dou toda força para ele saia! Deve render belas risadas… Afinal, depois que passa a revolta, o negócio é rir para não chorar!

    • Oi Fezinha!!! =) Estou, atualmente, tentando escrevê-lo porque as risadas são únicas mesmo… Como quando estávamos tomando algo em um bar, no sábado de madrugada, e o Jorge sentiu o chão tremendo. Ele olhou para o garçom que respondeu, naturalmente “ah, é um terremoto!”. Hahahhaha!
      O problema é o tom das perguntas… Fico irritadíssima quando começam a perguntar coisas que nem meus pais me perguntam!

  2. Tati, essa já não é a primeira vez que vejo os seus relatos, sempre vejo em outros sites o seu depoimento sobre esse país e “cara”, as suas pequenas observações são muito cômicas kkkkk

    Eu me interessei por Filipinas a pouco tempo, final de 2013, quando eu encontrei uma voluntária pedindo doação por causa do Tufão Hayan, infelizmente ajudei com pouquíssima coisa, mas o interesse em conhecer esse lado da ásia foi enorme!

    Atualmente eu estou com gigantescas vontades de conhecer Manila, Quezon, depois descendo para Malaybalay e Dipolog onde moram algumas pessoas que acabei conhecendo por foruns na web =P

    Só tem um pequeno probleminha, ainda não estou acostumado a falar bem o inglês e acho que isso pode me atrapalhar bastante, mas na escrita até que consigo improvisar (e acho que consigo me sair bem, modestia a parte haha)

    Sobre a tal “falta de privacidade” será que isso atrapalha mesmo na nossa vida pessoal?
    Acho interessante a gente compartilhar as coisas, assim como gostaria de saber mais sobre eles também, a experiência lado a lado da pessoa deve ser melhor do que só simplesmente falar… (Bem, eu acho xD)

    Bom, só uma perguntinha básica que eu vi em outro site e me interessei também:
    O churrasco de PH é igual aqui no BR? Principalmente o churrasco paulista?
    Se for, acho que meu café, almoço e janta vai ser só disso hahah

    Tati, grande beijo e cuide-se!
    Admiro muito os seus relatos, além claro de conhecer um pouco de tudo de lá =p
    Até breve! o/

    • Olá Thomas! Obrigada pelo seu comentário mega-fofo! Se você me deixar, vou publicá-lo na fanpage do Trotamundos, lá no FB! 😉
      Então… Vamos por pontos, shall we? Se eu fosse você, NÃO viria a Manila. Não sei como estressar isso o suficiente, mas a cidade é enorme, não tem estrutura e é feia; para você ter ideia, quando a equipe de O Mundo Segundo os Brasileiros veio para cá, eles comentaram “mas não há nada para se fazer em Manila?”. A resposta é não, não há nenhum lugar diferente ou super legal ou mesmo que valha a pena ir todos os fins de semana; eu os passo em shopping centers ou restaurantes, jantando ou comendo com amigos ou em baladas, bebendo. Horrível, não? Haha!
      Sobre o inglês, vou dar uma dica de vida de alguém que aprendeu um idioma novo aos 33 anos de idade: ainda que você ache que não fale bem, não tenha medo de abrir a boca e falar. Mas fale claro, mesmo que esteja errado, e peça para as pessoas corrigirem. Se o seu inglês escrito for bom como você disse, a única coisa que falta é a prática: isso é, você precisa desenvolver a rapidez em pensar no idioma. E isso só ocorre com a prática. E fale alto e claro para que as pessoas possam ouvir o que você diz.
      Falo isso por experiência própria. Eu aprendi o espanhol com 33 anos de idade quando fui jogada em um projeto em Barcelona; hoje, sou team leader de uma equipe de oito pessoas, responsável pela América Latina e falo de igual para igual com todos os Financial Directors das companhias que estão sob minha responsabilidade. E, quando me falam algo, sou o tipo de pessoa que diz “então você quer dizer ABC?” e pareço sim uma criança porque preciso confirmar que aquilo que entendi está correto. E nem por isso sou desrespeitada; acho que ainda por isso sou mais!
      Sobre a invasão de privacidade… Acho que incomoda mais porque eu ligo e não gosto das pessoas fuçando na minha vida. Vamos convir: o que meu colega tem a ver se eu brigo ou não com o meu marido? Eu sou muito reservada e tudo que compartilho aqui, no Trotamundos, e também no Brasileiras pelo Mundo, o faço com o coração aberto e muito prazer. Mas há um limite e eu não gosto de perguntas intrusivas sobre a minha vida pessoal. Então, a forma como desvio dos assuntos é ou sendo grossa (posso ser bem grossa quando quero) ou perguntando “agora você vai querer saber sobre a minha vida sexual também?” – porque, aqui, eles ainda são muito recatados quando o assunto é sexo. Mas eu sou assim porque realmente tampouco pergunto muito sobre a vida da outra pessoa! Hehe! Como disse, é uma questão pessoal.
      Sobre o churrasco. NÃO! Haha! O churrasco filipino NÃO é igual ao churrasco brasileiro. A carne aqui é cara então tudo é feito ou com porco ou com frango; lembre-se, estamos em ilhas e gado precisa de pasto – o que não tem. A melhor carne que comi aqui foi em um restaurante argentino e o jantar saiu em torno de USD 40/pessoas. Não foi a refeição mais barata, especialmente se você considerar que por USD 1.00 (isso mesmo, um dólar), se compra uma refeição Filipino-style no 7/11 e por USD 2.50 se compra uma refeição no McDonalds!
      Mas venha sim, sinta o país com sua própria alma e veja tudo com seus próprios olhos; não há melhor maneira. Como disse Amyr Klink (e o cito), “Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”.
      Tudo de melhor para você! E continue seguindo minhas aventuras pelo mundo afora! 😉 Prometo que não acabou!
      Um beijo!

      • Tatiiii! Obrigado por me responder! =]

        Pode publicar a vontade! ^^

        Adoro o seu jeito se escrever as coisas, bem clara e objetiva, acho que te acompanho já tem um ou dois meses (não descobri antes porque realmente não sabia -.-‘)

        Irei fazer novamente algumas observações e perguntas em duas partes, vamos lá:
        1° Parte:
        Sobre os lugares que eu comentei antes, seria somente uma parada rápida, eu nem ficaria lá, seria mais como se fosse uma “escala de aeroporto”, diga-se de passagem.

        Ao conversar e pegar bastante amizade (acho que ta rolando algo a mais também haha) com uma pessoa, meu destino final seria Alcantara, praia de Moalboal, oeste de Cebu City, ruim está sendo o lugar para ficar que ainda não encontrei o lugar certo e barato…
        Um amigo meu que está na Austrália fazendo Intercâmbio me indicou o site do AirBNB, mas mesmo assim, achei um pouco caro demais as estadias.
        Infelizmente eu acho que a casa da pessoa não será possível de ficar.
        –Não quero abusar da sua parte mas poderia me ajudar nisso também? ^.^”–

        Na questão de privacidade, achei interessante os pontos que você abordou, realmente tem algumas coisas bem chatinhas de perguntar/responder, isso atrapalha bastante mesmo, dá até pra ficar com vergonha de ouvir e responder… *blushed*

        Café / Almoço / Jantar a base de Churrasco foi de fato uma coisa bem peculiar de comentar, na verdade, perguntei sobre isso porque eu vi em outro blog falando de um restaurante que fazia churrasco a moda brasileira lá em Makati, se ainda existir eu acho que o endereço é esse: Serendra Piazza Mc Arthur Avenue Bonifacio Global City Taguig Metro Manila, próxima da 5ª Av com a 26ª. (coisa de americano né kkk)

        Fiquei praticamente pasmo com Mc a 2,50U$, aqui no BR, como já é tudo tabelado, não tem como fugir dos valores horríveis que tem por aqui! Arg! ¬¬’

        É melhor eu treinar o inglês fora do que aqui, meu amigo que está na Austrália se arrependeu de pagar 3 anos de cursinho pra nada (deu dó da grana “jogado fora” hahah)

        Não vejo a hora de visitar logo esse lugar! *-*

        —–
        2ª Parte
        Voltando para o assunto principal do tópico sobre Estadia e Moradia, fiquei com algumas dúvidas realmente cruciais que já vi em outros lugares, mas não achei as respostas tão confiantes assim, você está sendo a melhor pessoa para tal =D

        Visitar o país eu já sei que tem algumas regrinhas básicas de estadia que seria de 3 meses prorrogando-se para 6 meses, isso é até normal.

        Mas uma pessoa querer realmente se jogar para PH afim de morar, comprar ou construir a sua própria casa em algumas instâncias isso realmente valeria a pena?
        Eu vi que o custo de vida é realmente bem barato (até por causa da moeda local), analisando as coisas como um todo, trabalho, moradia e sustento seria “”igual”” aqui em SP? (Ah, alias, sou de Guarulhos* :P)

        Fiz uma pesquisa rápida algumas semanas atrás e haja grana pra comprar, mas as casas (pelo menos em alguns lugares) se parecem como classe alta estilo Moema ou Vila Olímpia, fiquei surpreso por tantos detalhes!

        Outro ponto que eu analisei foi sobre o “salário mínimo” que é quase igual aqui já convertido, valeria a pena se jogar loucamente dessa maneira?

        Queria ver/saber como que são os trabalhos “comuns” administrativos e até mesmo de telefonia, se compensaria ou não tudo isso.

        *O meu interesse em visitar PH foi por causa de uma garota que pediu a doação, que coincidentemente, estava no Shopping Internacional Guarulhos.

        —–

        Tati, desculpa por esse texto enoooorme, mas “conversar” com você está sendo muito esclarecedor! haha
        Alias, pode divulgar e editar o texto se achar necessário ^^’

        Beeeeeijo!

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