Sociedade de Hipócritas e Sexistas? A Pesquisa SIPS 2014 Indica que Sim…

Estava aqui, tranqüila, tentando desenvolver um texto para a publicação a qual contribuirei a partir de maio quando me deparo com a pesquisa de Sistema de Indicadores de Percepção Social feita pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e divulgada pelo O Globo em 27.03.2014.

O resultado dessa pesquisa é alarmante, em muitos aspectos. A princípio (gráficos 1, 2 e 3), ela demonstra que a grande maioria dos brasileiros vê a mulher como uma dona de casa início do século cujo maior sonho é casar, ter filhos e levar o copo de cerveja para o marido quando este chega do trabalho junto com os seus chinelos. Que outra coisa explicaria os quase 79% que acreditam que TODA (não a maioria, não a grande parte, mas TODA) mulher sonha em se casar e nos quase 60% que acreditam que a mulher só se sente realizada quando tem filhos? Eu não tenho filhos e me sinto realizada, obrigada por perguntar! E… Esperem… Eu sou uma mulher!

A pesquisa ainda pergunta sobre o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo. Pelos gráficos, percebemos que a maioria dos brasileiros ou é bastante ignorante, porque não entende conceitos básicos, ou é hipócrita. O gráfico 5 (casais de pessoas do mesmo sexo devem ter os mesmos direitos dos outros casais?) demonstra que mais de 50% concorda, parcialmente ou totalmente com essa questão. No entanto, quando perguntados sobre se o casamento entre pessoas do mesmo sexo deve ser proibido (gráfico 5) e se pessoas do mesmo sexo beijando-se na boca em público é algo que incomoda (gráfico 7), mais de 51% dos entrevistados responderam que concordam com a primeira afirmação e quase 60% concordaram com a segunda.

Vamos analisar? Nas palavras de Hans Kelsen, “o direito se constitui primordialmente como um sistema de normas coativas, permeado por uma lógica interna de validade que legitima, a partir de uma norma fundamental, todas as outras normas que lhe integram”. Em outras palavras, o Direito é o sistema de normas de conduta criado e imposto para regular as relações sociais. Isso quer dizer que se casar é um direito. Se a um casal heterossexual lhe é permitido beijar em público, então, beijar em público também é um direito. Então, se 50% dos entrevistados concorda que os casais de pessoas do mesmo sexo devam ter os mesmos direitos de outros casais, porque a maioria dos entrevistados acha que o casamento deles deva ser proibido ou o beijo é algo que incomoda? Isso me parece um tanto hipócrita.

Ainda que a pesquisa demonstre que a grande maioria dos entrevistados seja contra a violência, seja ela física ou verbal, a violência sexual é “desculpada”, já que para a maioria (65,1%), “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros” (58,5%). Citando a própria pesquisa, “a violência parece surgir, aqui, também, como uma correção. A mulher merece e deve ser estuprada para aprender a se comportar. O acesso dos homens aos corpos das mulheres é livre se elas não impuserem barreiras, como se comportar e se vestir ‘adequadamente’.”

Gente, eu não sei nem por onde começar a escrever sobre isso. Vamos partir do princípio que violência sexual é violência. Ponto. Não existem “mas” nem “poréns” que a justifiquem porque não existe justificativa para nenhuma forma de violência. A violência é fruto de falta de respeito que, em minha opinião, é fator fundamental para qualquer relacionamento. E se você precisa praticar a violência, qualquer que ela seja, para provar um ponto de vista, então você precisa rever seus conceitos. Acredito que a violência doméstica seja, por exemplo, fruto da falta de respeito das partes envolvidas. Respeitar o outro é básico. Simples assim.

Também considero que a forma como me visto ou o lugar onde estou não podem ser traduzidos como um convite à falta de respeito, ou seja, não podem ser considerados convites a qualquer abuso físico que possa sofrer. Lembro que fui a uma micareta com uma amiga há anos e, nesse dia, fui agarrada pelos meus dois braços e começaram a passar a mão em mim. Eu gritei e minha amiga me salvou. Nunca compartilhei essa experiência com ninguém, mas me senti, naquele dia, abusada. Eu não pedi por aquilo. Ninguém nunca pede para ser para ter seu corpo violado. Ninguém NUNCA pede para ser estuprada.

Culpar a vítima é algo desumano e cruel. Culpar a vítima é algo que deveria ser inaceitável porque, com isso, se está dando o “passe livre” para que a violência aconteça. Acho relevante citar o filme da Jodie Foster “Acusados” (The Accused), de 1988. Esse filme conta a história de uma mulher que é estuprada em um bar e, não importa como ela se comportava, ela não havia pedido por isso. Quando se assiste ao filme, percebe-se o limite entre o que pode ser considerado vulgar e o pretenso convite à violência. É um filme antigo e vale ser revisto.

Os resultados de uma pesquisa podem parecer imprecisos pela sua amostragem. Nesse caso, foram selecionados pouco menos de 4000 pessoas para representar uma população que chega quase aos 200 milhões. Mas vamos ser cínicos ao dizer que essa amostragem não representa o que muitos brasileiros pensam?

Acredito que os seus números representam as piadas de conteúdo maldoso que são contadas como se não fossem nada, as cantadas ofensivas que muitas mulheres escutam diariamente e os comentários de bar e nos corredores de escritórios. Quem nunca ouviu a frase “eu não sou preconceituoso(a), mas isso é coisa de bichinha?” ou o comentário “aquela é uma vagabunda… Se eu pegasse…” ou mesmo “todo São Paulino é viado”. Na boa, o que acontece no meu quarto é coisa minha e os meus gostos NÃO definem a minha sexualidade. Ponto.

Muita gente ficou surpreendida ao ver que 66,5% das pessoas que responderam às pesquisas são mulheres. Mas nós, mulheres, temos o péssimo hábito de nos sabotar. Qualquer mulher com mais de 30 anos e solteira já sentiu na pele perguntas do tipo “mas… Você não vai casar? E ter filhos?”. E muitas mulheres fazem os mesmos comentários que os homens, contam as mesmas piadas e riem. Nós, mulheres, rimos das piadas sexistas e dos comentários maldosos como se eles não significassem nada. Então, os números são tão surpreendentes? A resposta é não!

O preconceito que existe é velado. Ele transparece através de piadas e comentários, aparentemente inocentes, feitos sempre com um sorriso na cara, que denigrem a imagem de pessoas. Eles não são inocentes. Eles são maldosos e, muitas vezes, aceitamos e abraçamos esse tipo de comportamento para fazer parte de um grupo e não brigar ou ser ofendido por algum outro comentário. Afinal, aquilo foi somente uma piada, um comentário. Só que não.

O ser humano é um ser social e quer fazer parte de um grupo. Entendo isso. Mas, acredito que isso não possa ser desculpa para o cinismo de uma sociedade sexista e hipócrita, que não se aceita como é e encontra sempre alguma desculpa para justificar comportamentos horríveis.

É errado que uma sociedade culpe a vítima por pela violência sofrida, fortalecendo assim a “cultura do estupro”. Acho que chegou a hora de revermos os conceitos e perceber, em nossa hipocrisia, o preconceito que carregamos por gerações. Quanto aceitarmos o que de fato somos, preconceituosos e machistas, talvez possamos melhorar como sociedade e entender que tudo é uma questão de respeito.

Se vamos manter uma frase-feita em nossas cabeças, que seja: “o direito de um termina onde começa o direito do outro”. É simples assim.

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Trotamundos by Tati Sato is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
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3 comentários sobre “Sociedade de Hipócritas e Sexistas? A Pesquisa SIPS 2014 Indica que Sim…

  1. Tati, amiga muito querida. Não perca tempo pensando e enfatizando essa bobagem de “guerra dos sexos”. Nada mudou na cabeça das pessoas e no mundo só muda o cenário. Onde se via comunicação por sinais de fumaça, veja-se internet. Onde se via Maria Fumaça, veja-se Metrô,…, e as pessoas continuam as mesmas. Só melhora quem se aprimora na cultura e quem se aprimora na cultura não dá IBOPE para esse tipo de pesquisa.
    Não perca tempo com esses absurdos que só servem para enfatizar a violência e fazer dessa tristeza um modus vivendi.
    Cada um vive do jeito que quiser sabendo que temos direitos e deveres e que não devemos invadir a privacidade do próximo. A vida é muito bonita para aceitarmos da mídia essa antiga provocação para colocar o homem contra a mulher e vice versa. Bobagem porque fomos feitos uns para os outros.
    Um beijo,
    Manoel

    • Oi Manoel! Obrigada pelo comentário! Mas eu não sou a favor da guerra de sexos nem do feminismo. Acho que nós, ambos os homens e as mulheres, temos qualidades que se complementam. Tanto que eu me referi a “violência doméstica” e não homem que bate em mulher… Porque, honestamente, acho que muitas mulheres começam a briga dentro de casa (eu sou uma mulher e sou a primeira a dizer que, muitas vezes, somos chatas e ficamos apertando o mesmo botão… Somos irritantes a ponto de deixar o outro louco – muitas vezes EU mesma tenho vontade de ME dar um soco e acho louvável que meu marido me aguente – ou me ignore quando necessário)… Acho que falta respeito no país… Tentei não usar muito “machismo” porque acho o país sexista… Acho muito triste as piadas das que fui vítima, por exemplo. Mas é como muita gente pensa… Infelizmente. Por isso, acho que a palavra chave é respeito! 😉
      Um beijo, meu amigo! =)

      • Tati, que bacana o seu ponto de vista. Foi muito bom eu ter lido esse seu comentário que faz uma colocação bem madura da sua excelente postagem. A palavra chave é respeito mesmo. Fico feliz por ter uma amiga com uma cabeça boa como a sua. Agora só nos resta ir passando isso para melhorarmos nosso tão querido mundo.
        Um beijo no seu coração 🙂
        Manoel

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