O Fatídico Graveyard Shift: como trabalhar pelas noites está me afetando!

Eu sempre trabalhei em escritório. E, quando pensamos em trabalho em escritório, pensamos logo em trabalho das 9:00 às 18:00h, com uma hora de almoço certo? Bem, pelo menos era assim que pensava até vir para as Filipinas.

Aqui, os turnos em escritórios são divididos em três: o day-shift (tradicional), o mid-shift (que começa após o meio-dia) e o fatídico night-shift, também conhecido por graveyard shift (turno do cemitério, em uma tradução bem literal) simplesmente porque, passados alguns meses, a maioria das pessoas que trabalham nesse turno se tornam zumbis ambulantes, com olheiras negras que descem até o chão. Algumas companhias oferecerem uma coisa que chamo de swift-shifts, ou seja, parte do mês se trabalha em um turno e parte em outro (uma semana por mês se trabalha no graveyard shift, por exemplo, e o resto no mid-shift).

Isso acontece porque, como comentei em meu texto Emprego e Oportunidades para o Brasileiras pelo Mundo, além da presença de calls centers, muitas companhias estão trazendo seus departamentos de finanças (ou os terceirizando) para a Ilha de Lost por economia e para padronizar processos. E, na maioria das vezes, isso quer dizer que temos que trabalhar no mesmo horário que o território ou, pelo menos, coincidir com o departamento de finanças dos locais que atendemos em algumas horas.

Traduzindo: muitos escritórios funcionam 24h/dia e eu que, atualmente, atendo o território brasileiro, tenho que trabalhar no mesmo horário que eles trabalham lá; ou seja, das 10:00 às 19:00h horário de Brasília. Isso quer dizer que, entro no trabalho às 20:00, horário de Manila, e saio às 5:00 do dia seguinte.

Depois de ficar no swift-shift por quase um ano, o qual me dava a eterna sensação de viver em constante jetlag sem viajar (essa sensação sem pisar em um avião era terrível!), achei que trabalhar em um turno só, de forma constante fosse ser mais fácil. Só que não. Hoje, minha casa se parece bastante com o que deveria ser a casa de um vampiro tradicional, algum que não use um artefato que o permita caminhar durante o dia: tudo está à meia-luz, quase escuro, e a luz do sol não entra pelas janelas durante a semana.

Dormir durante o dia, mesmo com as janelas cobertas, não é algo fácil; sempre me desperto em alguma hora e a insônia é constante. Acho que isso acontece porque nossos corpos estão projetados para dormir durante a noite. Vários estudos mostram, por exemplo, que durante à noite, o corpo produz mais melatonina, o hormônio do sono e, quando chega o dia, o cérebro entende que é hora de despertar e reduz a produção do mesmo. Em contrapartida, o cérebro aumenta a produção de cortisol, o hormônio que nos deixa alerta, durante o dia. Entenderam o drama?

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Do artigo da Globo.com: “Luz, hormônios e fatores genéticos influenciam sono e relógio biológico”

Eu aguento quase tudo, mas, há alguns anos, descobri que não suporto a falta de sono; consigo até aguentar a fome (fico um pouco mau-humorada se tenho fome, mas aguento), mas tenho, literalmente, crises nervosas, se eu não consigo dormir: choro e entrego até os segredos mais fúnebres por uma boa noite de sono. Eis uma dica de tortura – por favor, não a utilizem.

Posso dizer que já trabalhei em todos os shifts, do matutino ao noturno e sei que todos têm suas vantagens e desvantagens. A maior vantagem de se trabalhar à noite é o trânsito – infernal: como vou no contra-fluxo, chego ao trabalho em 20 minutos (trajeto que, pela manhã, tardaria uma hora ou mais) e, na volta, demoro menos que isso. Se saísse do trabalho às 8h da manhã (ou às 18h), demoraria pelo menos 4x mais que isso.

Outra vantagem é não ter que lutar brigar (frequentemente) com os taxistas. Já contei como pode ser um pesadelo conseguir táxis em Manila? Na hora do rush, eles acreditam que podem negociar com você. NEGOCIAR, como se a lei da oferta e da procura substituísse os taxímetros (SQN). Alguns nem se dão ao trabalho de deixar que você abra a porta: eles descem a janela e perguntam onde você vai. Dependendo da resposta, eles saem dirigindo – alguns até balançam a cabeça, outros, nem isso. Sem exagero, é bem assim que funciona.

Para mim, o dia virou noite; tomo meu café às 20h e tomo meu vinho de happy hour às 7h da manhã, sem remorso algum. A balada de sábado à noite é o novo “almoço com as amigas” de um sábado qualquer. Isso porque, quando consigo me fazer sair de casa, para, finalmente, ter uma vida social e meu corpo não reclama, meu sábado à noite é o novo sábado de manhã e o (terrível) fatídico domingo à noite, hora do Fantástico no Brasil, é minha segunda de manhã…

Acontece… A reportagem da Veja “Trabalhar à noite provoca ‘caos’ na atividade dos genes” traz outras desvantagens de se trabalhar pela noite. Se bem que meus genes já são caóticos, por natureza. Então, quem sabe, o “caos” produzido pelo trabalho noturno não os transforme em normais…

De qualquer forma, algumas vezes ainda tenho o privilégio de ver o amanhecer, espetáculo da natureza que tive poucas oportunidades de presenciar. Isso não compensa o fato de ter insônia, mas, com certeza, é um dos fatores que me fazem sorrir. Porque, alguns amanheceres conseguem tirar o fôlego tanto quanto alguns pores-de-sol.

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2 comentários sobre “O Fatídico Graveyard Shift: como trabalhar pelas noites está me afetando!

  1. Tati, você é tão simpática que parece que faz anos que a conheço. Gosto de pessoas com o seu modo de encarar a vida. Muito bom. Agradeço a Chris por ter chegado aqui.

    Quanto a sua postagem, nós temos esse defeito (ou não!) em comum. Eu suporto fome, calor, um pouco de sede, mas sono me deixa muito irritado. Eu sou engenheiro mecânico e trabalhei muito em automobilísticas. Na época de projeto e lançamento dos carros a gente rodava turnos (shifts) e o que eu menos me adaptei foi das 22:00 às 6:00. Quando chegava lá pelas 2:00 eu torcia para pegar fofo na fábrica (brincadeira, rs!) assim tinha alguma novidade ou agitação. Tudo acontece das 8:00 às 17:00 (horário Oficial). O resto tem que fazer o que decidiram nas reuniões desses horários. Não podemos dar idéias e nem improvisar. Fica um trabalho automático e cansativo. Enfim, adorei o seu post e gosto muito do seu blog. Vou ficar mestre no conhecimento das Filipinas. Se o clima é quase igual ao nosso vale a pena ficar por dentro. Valeu, Tati.
    Um beijo,
    Manoel

    • Oi Manoel!!! Muito obrigada! =) Eu tento não ser (muito) negativa porque acho que isso não vale a pena… Não quer dizer que eu não reclame: reclamo sim e tenho minhas crises, mas acho que isso também faz parte do “ser gente”! O importante é ter atitude, é fazer algo, não é mesmo?

      Descobri o nosso “problema” (vamos colocar assim porque, com ele, nunca poderíamos ser espiões! Hahah!) quando estava na Irlanda e não conseguia dormir porque, no verão, começava a amanhecer às 3h da manhã e só ficava realmente noite às 23h… E, naquele país, as pessoas não colocam persiana nas janelas (nem aqui, aparentemente). Entrei em crise e chorei! Aqui, estou com as janelas tampadas, estilo vampiro mesmo!

      O clima é parecido com o da Bahia, eu acho. Mas vale a pena conhecer essa Ilha de Lost, como, carinhosamente, apelidei as Filipinas! ❤

      Beijos e obrigada!!!

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