Tagalog: Falar ou Não Falar?

A Denise Assis escreveu no Brasileiras pelo Mundo (www.brasileiraspelomundo.com/), outro blog para o qual contribuo, sobre a importância de aprender o norueguês já que ela mora na Noruega. Imediatamente pensei na importância de se aprender o tagalog quando eu vivo nas Filipinas, uma das eternas discussões que tenho com um amigo que insiste que o deveríamos aprender enquanto eu digo que não.

Segundo a Constituição de 1987, dois são os idiomas oficiais das Filipinas: o inglês e o tagalog. Durante o período que o país ficou sob o domínio dos Estados Unidos (de 1898 a 1946), o inglês passou a ser um dos idiomas oficiais e ainda é assim considerado. O tagalog, no entanto, é o idioma nacional filipino e é amplamente falado e entendido pela população, inclusive pela enorme camada da população mais pobre. É o tagalog o idioma que os filipinos falam com seus amigos e sua família; o inglês é utilizado quando falam com estrangeiros.

A maioria dos filipinos de classe média não tem problemas em se comunicar em inglês. Eles têm bastante fluência no idioma e podem conversar, por horas, sobre qualquer assunto. No entanto, a camada mais pobre que o fala de uma forma bastante básica e rudimentar (o chamo de inglês quebrado).

Porque o inglês também é considerado um dos idiomas oficiais, nenhuma empresa que contrata um funcionário estrangeiro fornecerá aulas de tagalog. Tenho um casal de amigos e um deles trabalha para a Organização Mundial da Saúde (OMS, em português, ou WHO). Quando eles moraram na Indonésia, a empresa forneceu aulas de bahasa-indonésio, o idioma oficial local. Porém, quando vieram às Filipinas, a empresa não forneceu aulas de tagalog porque o inglês também é considerado idioma oficial embora uma grande parte da população tenha dificuldade em se comunicar nesse idioma. Sim, isso é bastante controverso e, em minha opinião, bastante complicado porque vejo uma falha enorme do governo filipino em providenciar o básico para que a população possa se comunicar nos dois idiomas oficiais.

Não vou me fazer de hipócrita e criticar somente as Filipinas, acreditando que o país de onde venho é perfeito porque sei que não é. Sei que o problema do ensino no Brasil é imenso e que o nosso governo fecha os olhos para a educação de uma população que não consegue escrever ou mesmo falar decentemente o português, o único idioma oficial do Brasil, quanto menos o inglês. De acordo com o Índice de Proficiência em Inglês EF (EF EPI), o Brasil se classifica em um vergonhoso 46o. lugar entre os 54 países listados e está entre os países de proficiência muito baixa no idioma. Honestamente, às vésperas de receber dois campeonatos mundiais enormes como a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 isso é aquém de vergonhoso; acho que não existe palavra para descrever tal situação. No entanto, o Brasil não se vende ao mundo como um país cujo inglês é um dos idiomas oficiais.

As Filipinas se divulgam como tendo uma população que fala o inglês e cujos salários são muito baixos. Esses estão entre os motivos pelos quais muitas companhias de outsourcing de finanças e de call centers montam suas bases por aqui. Ao contratarem a população local que fala o inglês com fluência, essas companhias pagam salários mais baixos que pagariam em qualquer outro país cujo inglês é o primeiro idioma. Isso não é justo com os estrangeiros que chegam ao país acreditando que não terão problemas em se comunicar e muito menos com a gorda camada da população local que é jogada em uma situação na qual deveriam saber se comunicar em inglês e não sabem.

O problema está no dia-a-dia. Quando um estrangeiro vem para cá, ele vai enfrentar diversas dificuldades na comunicação com a população de baixa renda que nunca freqüentou a escola (ou, se a freqüentou, foi apenas para o ensino básico) e cujo nível de inglês é básico. Entre essa camada da população, podemos incluir os motoristas de táxi, as meninas que contratamos para fazer a limpeza de casa, os porteiros, os caixas de supermercados e até atendentes de lojas e garçons em restaurantes.

Eu tenho cara de filipinas. Bem, sou asiática e praticamente todo asiático se parece a um filipino porque a mistura de raças aqui é enorme. Além das misturas com espanhóis e americanos, pela colonização, há a presença de todas as raças asiáticas. Portanto, como tenho descendência asiática e a pele bronzeada, a grande maioria das pessoas que encontro começa a conversar comigo em tagalog, assumindo que entendo o idioma. E não o entendo, grande parte devido ao bloqueio que foi criado em minha cabeça.

Após 2,5 anos morando aqui, entendo que, talvez, fosse minha obrigação entendê-lo. Acho que não o faço por birra. Como todos os filipinos que não me conhecem (desde taxistas, vendedores de loja, garçons em bares e restaurantes e até pessoas que me encontram nos elevadores do trabalho) insistem em falar comigo em tagalog, meu cérebro criou uma barreira e se recusa a aprender o idioma. Sempre me defendo com a desculpa de que o inglês também é considerado idioma oficial e que todos deveriam falá-lo também. Sei que é uma idiotice e que a população não tem culpa de não falar o inglês com fluência; o governo deveria ser responsável por educar a população em inglês se quer que este também seja idioma oficial do país. Também sei que a minha vida por aqui seria mais fácil se eu soubesse o tagalog. No entanto, o bloqueio foi criado pela minha teimosia e decisão em não o aprender. E sou o tipo de pessoa que aprende idiomas com certa facilidade e defendo a idéia de que quanto mais idiomas se conhece, melhor. Se esse idioma não for o tagalog, uma vozinha teima em comentar no fundo da minha mente…

Todas as vezes que pego táxi com meus amigos que são, fisicamente, ocidentais, eles são completamente ignorados pelos taxistas. Posso ser a única mulher e qualquer um deles pode dizer para onde vamos, mas o taxista sempre olha para mim, para obter uma confirmação. E, em geral, ele espera que eu confirme a informação em tagalog. O mesmo acontece em restaurantes: é muito comum, no momento que fazemos o pedido, o garçom (ou garçonete) olhar para mim para confirmar o que foi pedido. Eu fico pasma com isso! Sempre peço para eles recolherem os pedidos individualmente porque me recuso a repetir o que meus amigos estão dizendo já que vou fazer o mesmo e em inglês!

E quando digo algo em inglês, eles sempre me respondem em tagalog. Sei que deveria ter mais paciência, mas ela se esgotou há vários meses atrás… Tenho que confessar que isso aconteceu devido a minha cabeça-dura e teimosia porque sei que deveria saber melhor e os tratar de forma mais tranqüila. Não acho minha atitude justificável e muito menos compreensível, mas é o que acontece.

Lembro-me que outro dia estava na academia e entrei na sauna. Lá dentro, estava uma das funcionárias da academia segurando um baldinho com água. E a sauna cheirava a eucalipto! Eu fiquei encantada e perguntei à menina, em inglês, se aquilo era essência de eucalipto e onde ela a havia comprado. Ela olhou para mim com olhos esbugalhados e me disse algo em tagalog. Eu respirei e sorri (porque aprendi que sorrindo se consegue as coisas de forma mais rápida e eficiente por aqui), falei que não sabia falar tagalog e perguntei se ela poderia repetir em inglês. Ela repetiu. Em tagalog… Frustração. Eu a olhei e ela saiu correndo, como o diabo fugiria da cruz…

Nessas situações, uma mistura de sentimentos toma conta de mim. Acredito uma falta de respeito que, embora eu fale em inglês, me respondam em tagalog e o sigam fazendo ainda que eu diga que não entenda o idioma. Mas também entendo que muitos filipinos de classe social baixa entram em pânico quando são surpreendidos em uma situação que são forçados a falar o inglês e ficam bloqueados da mesma forma que bloqueei o tagalog. Paciência. Assim é a vida…

PS: Embora eu não fale o tagalog, posso dizer algumas palavras, principalmente direções para os taxistas (derecho lang: siga em frente; kaliwa: esquerda; kanan: direita; dito lang: aqui; para dito lang: para aqui). Também aprendi o muito obrigada (salamat po) e o fato de que “po” é um pronome de tratamento que pode ser traduzido como senhor ou senhora.

Como qualquer idioma, o tagalog é vivo. Pela influência do inglês, muitos filipinos de classe média ou classe alta falam o “taglish”, que é uma mistura de tagalog e inglês. Como o tagalog contém mais de 3000 palavras de origem espanhola (devido a colonização), se estou em uma mesa na qual falam o taglish, quase consigo entender o conteúdo das conversas. Isso não quer dizer que eu saiba falá-lo.

Fontes:

http://www.ncca.gov.ph/about-culture-and-arts/articles-on-c-n-a/article.php?igm=3&i=207

http://www.ef.com.br/__/~/media/efcom/epi/2012/full_reports/ef-epi-2012-report-br-lr

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8 comentários sobre “Tagalog: Falar ou Não Falar?

    • Oi Débora! Fico super feliz que você esteja acompanhando o blog e todas as minhas loucas histórias por esse país estranho e esse continente esquisito! Haha! Quanto ao tagalog, para mim, como já disse, é uma questão de teimosia… Mas depois do que aconteceu ontem (que relatei no último post: Sangue nos Olhos vs. Pobres de Mente), vou aprender o tagalog só para entender o que os meus colegas filipinos falam de mim na minha frente porque não entendo o idioma!!! E, como sou teimosa, vou conseguir! Haha! Já te conto…

  1. E uma vez nas Filipinas, Tati, existem cursos de idiomas, onde se ensina o Tagalog a estrangeiros? O meu foco é a cidade de Cebu. Beijos!

    • Oi Fernando! Tudo bom? Desculpa a demora por responder a sua mensagem.

      Eu não conheço cursos de tagalog ou filipino. Todos os estrangeiros que o falam, o fazem porque conviveram com os filipinos.

      Particularmente, acho que o governo deveria facilitar o acesso a esse idioma. Eu mesma, que nunca fui forçada a falar ou escrever no idioma, não o falo, mas sei a falta que isso me faz… Nunca sei se alguém está falando mal de mim na minha cara! Hehe!

      O que você pode fazer é entrar em contato com filipinos e pedir que eles ensinem o idioma para você! Seria uma boa troca, não acha?

      Um beijo!

  2. Olá, eu sou um brasileiro que vive nas Filipinas a quase três anos e sei falar o tagalog e tento sempre usá-lo aqui, é uma lingua muito legal

    • Oi Bruno, que legal que você aprendeu o tagalog. A verdade é que nunca me interessei por ela porque meu objetivo nunca foi viver nas Filipinas por muitos anos da minha vida. E, honestamente, fora das Filipinas, não vejo muita utilidade para ela!
      Boa sorte!

      • Obrigado por responder-me, Tatisato 🙂
        No meu caso, eu sou membro de uma igreja internacional que foi fundada aqui nas Filipinas, me tornei membro dessa igreja quando ainda esta no Brasil e como eu já trabalhava com línguas eu vim pra cá por convite pra aprender tagalog e agora sou um dos tradutores da Igreja pros países que falam português. Ainda que a igreja é internacional usa-se ainda no culto principal o Tagalog. 🙂

        Você ainda esta morando nas Filipinas?

      • Olá Bruno,
        Nao moro mais nas Filipinas – me mudei há quase cinco meses – e nao tenho a intencao de voltar! =)
        Toda a sorte do mundo na Terra de Lost. Acho que há certos lugares do mundo nos que sentimos maior afinidade – o nosso lugar feliz – e espero que as Filipinas sejam o seu! =)
        Um beijo

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