O Bom Senso e o Premium Senso

Algumas vezes acho que o bom senso deixou de ser algo comum. Como disse uma amiga em um happy hour de uma sexta-feira, o bom senso (ou sentido común, em español, ou common sense, em inglês), se transformou em premium senso (ou premium sense).

Antes de chegar ao motivo pelo qual chegamos à conclusão de que hoje em dia o bom senso se tornou premium senso, acredito que existam sim diferenças culturais, comportamentais e de educação que precisam ser consideradas em qualquer relacionamento. Por exemplo, para mim, arrotar em público é algo completamente anormal. Sei que muitos brasileiros (especialmente adolescentes do sexo masculino) adoram suas competições de arrotos, mas, honestamente, é uma coisa bastante desagradável. E, com a esperança de que a maturidade um dia chegue, eles não o farão constantemente e nem em público.

Nas Filipinas, assim como nos países árabes, arrotar em público é normal. Caminhando pelas ruas, já ouvi pessoas arrotando ao meu lado. Isso não quer dizer que eu tenha me acostumado a isso: meu estômago continua a revirar quando escuto alguém arrotar ao meu redor, mas acontece. O problema é quando alguém solta um arroto que sacode a sala em uma reunião com clientes europeus, por exemplo. Isso é um choque cultural e esse tipo de situação deve ser tratada em cursos que lidam com esse tema.

Voltando ao bom senso. Acho que o que vou escrever nas próximas linhas, no entanto, não tem a ver com choques culturais, mas sim que o tal bom senso.

Um conhecido meu (vamos chamá-lo de Giga) é um búlgaro de mais de 2 metros de altura e, possivelmente, mais de 200 kg. E não, ele não é o chefe búlgaro que olhava os meus peitos enquanto falava com ele. O Giga era um colega que, quando se abaixava para tentar explicar algo para algum colega, mostrava todo o seu cofrinho cheio de pelo. Nojento, eu sei. Quase vomitei a primeira vez que vi a cena… Enfim.

Bem, o Giga foi para uma entrevista de emprego. A entrevista estava marcada para as 17:30h, mas o Giga decidiu chegar as 15:30h. Se fosse comigo, eu buscaria um café próximo ao local da entrevista e esperaria por 1,5h. Mas o Giga decidiu entrar no edifício e perguntou aos guardas da recepção onde ficava a mesa da gerente que o entrevistaria (seu nome era Baby, mas nomes são temas para outra discussão).

Eu tenho 1,64 metros e peso 61 kg e com todo esse tamanho, sou considerada uma mulher alta para padrões filipinos. Deus, chego a ser maior que muitos homens que encontro na rua! Então, uma pessoa de 2 metros de altura e mais de 200 kg é, literalmente, considerado um gigante por aqui. E o Giga não é uma pessoa delicada: seu tom de voz é alto e autoritário. Então, eu entendo que um filipino de 1,60 m de altura trema quando o Giga fale algo (eu tremeria com medo que o Giga fosse me engolir se eu dissesse que não…). Portanto, quando o Giga perguntou aos guardas da recepção sobre a mesa da Baby, ele foi levado diretamente a ela.

“Olá, eu tenho uma entrevista para as 17:30h, mas tenho outro compromisso a essa hora e decidi vir agora”

Alguém pode me explicar o que passa pela cabeça de alguém que faz isso em uma entrevista de emprego? Quero dizer, agendamos entrevistas e horários para a conveniência de ambas as partes. E, quando vamos a uma entrevista de emprego, temos que ser uma versão melhorada de nós mesmos, isto é: usamos nossas melhores roupas de trabalho e somos extremamente educados e motivados. Então, se isso é verdade, quem chega a uma entrevista com duas horas de antecedência, dizendo que tinha outro compromisso depois? Se eu fosse a tal gerente, me recusaria a recebê-lo pela simples falta de respeito.

Outro dia, fui a um bar com uns amigos. Nessa turma de pessoas, estava um rapaz que conheci há dois anos e eu não tenho muito contato porque a cada dez palavras que saem da sua boca, onze são mentira e porque não temos nada em comum. E como eu prefiro ler um bom livro ou ver qualquer coisa na televisão a conviver com ele, perdemos o contato e só nos encontramos quando meus amigos decidem chamá-lo para se juntar ao nosso grupo. Vou apelidá-lo de Careca.

Já sabíamos que ele estava sem passaporte há quase um ano. Ele é estrangeiro nas Filipinas e deixou seu passaporte vencer e o seu país não tem embaixada nas Filipinas. Não posso dizer que esse tipo de coisa acontece porque eu, como estrangeira, sei que o vencimento do meu passaporte é 2015. Essa data está impressa na minha memória, mas existem pessoas que não prestam atenção a esses detalhes. Depois de uma batalha árdua, ele conseguiu que o embaixador do seu país no Japão fizesse o passaporte para ele sem que ele estivesse fisicamente presente e enviasse o documento por correio. Algumas semanas depois que o passaporte chegou a casa que dividia com seu namorado, eles brigaram e o seu namorado rasgou o passaporte. Ou, pelo menos, essa é a história.

Ele me contou a história. E disse que seu namorado estava arrependido e que ele pagou o novo passaporte, mas, dessa vez, o cônsul do seu país no Japão não faria o favor novamente. Concordo com a atitude do cônsul porque foi uma exceção, mas disse a ele que se o namorado dele tinha rasgado o seu passaporte, ele deveria arcar com todas as despesas, incluindo a viagem, para que o novo documento pudesse ser emitido.

Acho que o Careca é um pouco limitado porque ele não entendia o que dizia. E eu repetia a mesma coisa, em inglês e em espanhol. Até que o Careca me disse “diz isso para ele, por favor?”

“Perdão? Dizer o quê e para quem? Dizer para o SEU namorado que ele tem que pagar todas as despesas decorrentes da emissão de um novo documento, quaisquer que elas sejam???” perguntei, com uma sobrancelha levantada e muita descrença. Não era possível que alguém com quem eu não convivia estivesse me pedindo tal coisa. Mas não, eu não o havia entendido mal porque ele acenou e disse novamente:

“Fala isso para ele!”

Eu ri. Alto e na cara dele. Não, querido (um querido bem sarcástico). Não vou falar com o SEU namorado porque ele não é PROBLEMA MEU. Ele é problema SEU. E, honestamente, nem somos tão amigos para eu transformar um problema SEU em MEU, portanto, se vira. Sim, eu consigo ser assim de sarcástica. Portanto, não queiram me ver brava…

Acho que nesse dia o Careca decidiu alugar o meu tempo. Porque, mesmo depois dessa resposta, ele continuou conversando comigo até que ele me disse que eu ignorava suas mensagens de texto e chamadas.

Eu olhei nos seus olhos e disse “Olha no seu celular e verifica quando foi a última vez que você me ligou ou enviou mensagens! Você nunca me envia mensagens ou me liga então eu não posso ignorá-lo”

Ele piscou algumas vezes, como se o que eu dissesse fosse algo que ele nunca tivesse ouvido. E repetiu a mesma coisa. Respondi:

“Se você nunca me manda mensagens ou me liga, e eu tampouco envio mensagens ou ligo para você, não o estou ignorando; simplesmente não estou correndo atrás de você. Entende a diferença?” Acho que, ainda assim, ele não entendeu o que quis dizer…

Honestamente… Sei que, às vezes, sou bastante inflexível em relação às pessoas e que muitas vezes meu bom senso é um pouco falho, algo que tenho tentado corrigir com o tempo… Mas existem coisas que passam pelas cabeças das pessoas e atitudes que elas tomam que desafiam qualquer noção do que eu consideraria normal. Ou, simplesmente, o bom senso esteja em falta e, por isso, deva ser chamado agora de premium senso.

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