O Grinch do Valentine’s Day

Eu sou o Grinch do Valentine’s Day e do dia dos namorados no Brasil: por mim, essa data não existiria. Calma, não sou uma pessoa louca que não acredita no amor (muito pelo contrário), mas não acredito que tenha que existir um dia para que o amor seja celebrado; ele deveria ser celebrado todos os dias, tamanha é a sua importância. Mas, alguém, em algum lugar do mundo, em alguma época da história, decidiu que o dia 14 de fevereiro deveria ser o dia que os amantes comemoram o seu amor, com jantares, noites românticas e presentes. Alguém simplesmente decidiu comercializar o amor e é por isso que eu não gosto desse dia.

Algumas pessoas até podem compará-lo com o Natal, mas, para mim, o Natal tem mais a ver com família. Os presentes e toda a comercialização que existe em torno do dia 25 de dezembro é só uma conseqüência, uma desculpa para ter a família em torno da mesa. Eu gosto do Natal por causa das minhas lembranças, da minha família e de tudo que ele representa porque, embora seja esquecido, nesse dia se celebra o nascimento de Jesus. Então, se você não acredita em Jesus, acho que você deve ver o Natal como eu vejo o Valentine’s Day: um dia sem sentido algum.

Mas, estando nas Filipinas, é impossível não se escrever nada sobre o Valentine’s Day. Nessa semana, todos os hotéis nos lugares mais paradisíacos do país ficam lotados, as lojas e restaurantes ficam enfeitados com enormes corações vermelho e rosa. Hoje, por exemplo, todas as pessoas que passavam por mim no escritório me desejavam “Happy Valentine’s”. E, de repente, o meu Facebook fica lotado de mensagens românticas e corações fofos com as mais diversas mensagens de “Happy Valentine’s”.

Meu colega chorava de rir ao ver minha cara quando ouvia isso, tamanha é a minha descrença por esse dia: eu não conseguia disfarçar o sorriso amarelo quando respondia “same to you”. E, como eu, ele tampouco vê sentido nessa data.

Não consigo entender essa demonstração de afeto que, particularmente, me parece falsa. Porque, muitas vezes, brigamos com o mundo durante o ano inteiro, mas chega o dia 14 de fevereiro (ou 12 de junho, no Brasil) e escrevemos poemas românticos, dizendo como a outra pessoa é importante em nossas vidas. Honestamente, acho que isso se parece muito com um católico que vá a missa todos os domingos, confessa seus pecados e, ao sair da igreja, já está falando mal da senhora do banco da frente que tem um amante… A mesma hipocrisia pode ser aplicada para ambos os lados.

Talvez isso aconteça porque passei mais dias do namorado sozinha que com alguém. Entendo que talvez isso possa acontecer porque eu tenha criado uma camada de desprezo em relação a um dia que todos ganhavam presentes menos eu. Mas, na minha fase adulta de vida, acredito que, talvez, o mais razoável seria celebrar o amor todos os dias e ter um dia só no mundo no qual se poderia odiar. Imaginem como seria: um dia qualquer, poderíamos xingar a mãe do vizinho que ocupa duas vagas na garagem, gritar com o estagiário que entregou o trabalho mal-feito, desligar na cara do cliente que não para de ligar perguntando onde está o seu pedido… Faríamos tudo aquilo que fazemos todos os dias na nossa vida, em um só dia. E durante todos os 364 dias do ano, amaríamos. Durante os 364 dias do ano, esqueceríamos que o vizinho que ocupa duas vagas na garagem existe porque, simplesmente, perder tempo com ele não vale a pena. Lembraríamos que nossos amigos e família são as pessoas mais importantes na nossa vida, os abraçaríamos como se não houvesse o dia seguinte e eles saberiam o quão queridos são.

Durante os 364 dias restantes do ano, entenderíamos que o estagiário que entregou o trabalho errado está naquela posição para aprender. E que, de repente, embora ele possa não ser a pessoa mais indicada para o trabalho, ele não precisaria ser xingado para entender que o que ele fez estava errado.

Durante os 364 dias restantes, lembraríamos mais das pessoas que amamos e não nos importaríamos tanto com as pessoas que fazem mal. Abraçaríamos mais, beijaríamos mais e escreveríamos mais cartas de amor.

No entanto, eu sei que, no fundo, isso ainda não é possível. Temos a necessidade de extravasar os nossos demônios todos os dias e, infelizmente, as coisas que nos incomodam se tornam mais importantes em nossas vidas que as coisas que amamos (talvez porque quando algo ou alguém nos incomoda é porque temos que aprender com essa coisa ou pessoa). Infelizmente, perdemos tempo odiando mais que amando e é por isso que, talvez, o amor precise ter o seu dia…

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