As Minhas Cinco Fases de Luto…

Desde que eu voltei de férias, estou trabalhando muito… Bom, talvez muito seja pouco… Estou trabalhando como uma escrava, sob o olhar do capataz da fazenda, de sol a sol… Ou melhor, de lua a lua porque na segunda-feira passada, literalmente, vi o pôr do sol através das janelas do escritório e o nascer do sol também. E antes do pôr do sol e após o amanhecer, seguimos trabalhando… Ontem, até o sol decidiu descansar enquanto seguíamos no escritório. Acontece.

Acho que fazem isso para que eu nunca mais pense em sair de férias outra vez. Mesmo se soubesse que teria que trabalhar por dois dias dois turnos de 16 horas (já disse: tem gente que acredita que sou uma escrava) quando voltasse, eu ainda iria feliz ao aeroporto, ansiosa por embarcar para a jornada mais longa da minha vida: aproximadamente 30 horas de vôo.

Como mudei de projeto há pouco tempo, entendo que até que os processos estejam estabilizados, a hora extra é um mal necessário. Eu não recebo pela hora extra que trabalho (portanto, não estou ficando milionária) e nem existe uma política de compensação das horas extras por horas de folga (leia-se: sou uma escrava). Honestamente, acho isso muito injusto porque acredito que, quando se trata de trabalho, tem que existir uma cooperação entre a companhia e o empregado que tem que se sentir motivado. De outra forma, o empregado se sentirá depreciado e a rotatividade da companhia será enorme, uma situação que não é boa para nenhum dos lados: o empregado se cansará e sairá da empresa, que perderá conhecimento e experiência.

No meu primeiro projeto, cheguei a trabalhar 12 horas por dia durante uma semana ao mês. Acho justo que a companhia necessite que eu fique mais tempo para terminar o que tem que ser feito. Mas também acho justo que a companhia me dê horas de folga quando eu precisar. Quando eu perguntei ao RH sobre isso, eles me disseram que a política da empresa era não pagar horas-extras e que, embora tivesse trabalhado 12 horas, a companhia esperava que eu chegasse no próximo dia no horário para trabalhar as minhas 8 horas (mínimo). Quando eu li esse e-mail, surtei: mandei um e-mail enorme ao gerente e à presidenta local da companhia dizendo que já que não existia forma de se chegar a um acordo, eu trabalharia minhas 8 horas e iria para casa, independente da quantidade de trabalho que tivesse. Embora fosse uma ameaça porque deixar trabalho por fazer é algo que simplesmente não consigo fazer, uma das respostas que obtive, com uma redação melhor elaborada, foi: “se você não cumprir o que tem que ser feito, você será demitida”. O tiro saiu pela culatra…

Acho essa política de incentivo ao funcionário o máximo. Nunca havia trabalhado para uma companhia que tratasse o empregado de forma tão justa e honesta (#NOT!)! Lembro-me que naquele mês eu quase explodi de revolta e ódio, mas tudo passou: o processo se estabilizou e não precisei mais fazer hora extra.

Hoje que acontece a mesma coisa, dou risada. Não porque eu seja uma boba alegre, mas porque simplesmente cansei de me estressar por causa dessas coisas. Continuo afirmando que é um absurdo que esperem que eu trabalhe como uma escrava (afinal, a escravidão se tornou uma forma de trabalho ilegal na maioria dos países do mundo) e que as políticas de uma empresa sejam seguidas tão ao pé da letra, sem o questionamento se elas atendem às leis trabalhistas locais ou não. Mas eu também entendi que os filipinos trabalham assim: eles são muito submissos e seguem as mais absurdas ordens, sem questionamento algum… Um dia vou escrever sobre isso…

Comparando as minhas duas reações, percebi que elas se parecem muito com os 5 Estágios do Luto, segundo o Modelo de Kübler-Ross. De uma forma muito básica (meus amigos psicólogos não vão gostar dessa explicação simplista), ele diz que toda perda vem acompanhada de cinco estágios: 01- a Negação (“estou bem”); 02- a Raiva (“perdão? O que você quer dizer com isso?”; “Isso é injusto”, que pode vir acompanhado de revolta, inveja e ressentimento); 03- a Barganha (“Vamos negociar…”); 04- a Depressão (suponho que não seja preciso esclarecer essa frase) e 05- a Aceitação (“É o que tem que ser feito…).

Engraçado como percebi que esses cinco estágios podem ser aplicados a qualquer coisa que me incomoda profundamente! Embora eu não goste de Manila, percebi que passei por esses mesmos estágios durante meu processo de aceitação em estar nessa cidade caótica e quente que escolhi estar, por termos profissionais.

De qualquer forma, de volta ao tema, acho que eu passei por todas as fases nesse meu processo de luto pela minha vida social… Até tentei negociar com a “Senhora Morte”, mas o resultado foi um e-mail contendo todas as políticas internas da empresa (que, particulamente e com muito carinho, chamo de políticas escravistas). Fiquei depressiva, fase que me isolava em casa, e agora cheguei à fase de aceitação. Embora não concorde com a política ou com o método que ela é implementada, hoje não brigo mais com a companhia (sinto como se desse murro em ponta de faca e, no final, quem fica frustrada e estressada sou eu).

Nessa semana, quando trabalhamos as nossas intermináveis horas, eu e meu colega ríamos nas nossas mesas, pelo desespero da situação e pela falta de sono. Quando chega o momento em que os risos de desespero tomam conta do ambiente, a situação da falta de sono e cansaço está séria. Bom, ainda resta a esperança de que isso não será algo que se prolongará por muito tempo e que vou voltar a ter uma vida social razoavelmente tranqüila… Enquanto isso não acontece, vou esperando que chegue o fim de semana que vou à Boracay com os espanhóis (EBA!) e finalmente tombar na areia branca da praia e ficar por lá até que o sol se ponha, com um cocktail em uma mão enquanto meus pensamentos voam para longe. Porque até um escravo tem pelo menos o direito de sonhar! =)

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